terça-feira, 27 de novembro de 2007

Dedico esse ensaio a minha mãe, Roseli.

“A vaidade nos torna faladores; o orgulho, lacônicos. Mas o vaidoso deveria saber que a alta opinião dos outros, à qual ele aspira, é muito mais fácil e segura de ser obtida com o silêncio contínuo do que com a fala, mesmo quando se tem as coisas mais belas a dizer.” (Arthur Schopenhauer)
Não entenda vaidade aqui apenas no sentido de “presunção” ou “soberba”, embora o sentido literal da palavra seja realmente este. Existem pessoas que, ingenuamente, querem a qualquer custo agradar os outros, manter a harmonia entre as pessoas, tentar fazer enxergar que existe algo que transcende a matéria, algo que poderíamos chamar de amizade ou amor fraterno – uma verdadeira irmandade. Uma pessoa que fielmente acredita nisso, muitas vezes, torna-se falante por demais: quer atrair a atenção das outras pessoas para que elas também compartilhem desse pensamento. No entanto, o resultado obtido por essas sucessivas tentativas é o oposto: as pessoas que “ouvem” começam a desconfiar das verdadeiras intenções de quem o apregoa ou quem tenta convencê-las desse tipo de relacionamento fraterno. O que uma pessoa como essa precisa entender é que não se deve buscar a harmonia do lado de fora, ou seja, tentar harmonizar o ambiente fora de si. A verdadeira harmonia só pode ser obtida a partir de dentro, sempre. Não adianta, tentar mudar as pessoas, isto é o mesmo que dar murro em ponta de faca. Nessa pessoa falta um ingrediente fundamental para a sobrevivência entre os seres humanos: o Orgulho, que embora seja um sentimento muitas vezes considerado ruim, em certa medida torna-se um santo remédio contra a dor provocada pelo desprezo alheio, a humilhação e o rebaixamento. O contínuo esforço em torno dessa busca vã não causará nada além de sofrimento. A verdadeira lição só a vida pode ensinar. E a lição mais importante que um ser humano precisa buscar é como ser feliz, isto é, como ser auto-suficiente, como depender de si mesmo para tudo e para qualquer hora. Esperar dos outros qualquer iniciativa é um verdadeiro martírio. O orgulho faz com que nos lembremos constantemente que tudo aquilo que já foi dito ou feito contra nós, que todas as trapaças mais vis praticadas contra nós mesmos são sempre golpes extremamente dolorosos os quais devemos evitar a qualquer preço. Ter uma boa memória para as vilanias alheias será um grande incentivo para fortalecermos o sentimento de orgulho. A palavra orgulho tem origem germânica, orcullum, que servia para designar pessoas de brio, de altivez. Provavelmente o uso corrente que designa à palavra orgulho o sentido de soberba venha da religião cristã a qual prega a humildade (do latim humilitas - humilhar). Ser humilde é estar disposto a se humilhar constantemente. Ser orgulhoso, pelo contrário, significa ter brio (do céltico brigos – força, coragem, sentimento da própria dignidade), isto é, brigar por aquilo que se mais preza: o seu próprio eu. E brigar por si mesmo não precisa ser literalmente sair em busca de confusão para se defender, pelo contrário, é manter-se altivo sempre, manter-se em posição elevada, não se rebaixar ao nível daqueles que o puxam para baixo com todas as forças. E a principal lição que se deve ter em mente sempre é não permitir que outras pessoas tenham acesso ao seu interior, é ter uma barreira intransponível contra as pragas cuspidas pela boca de outrem. A melhor forma de se proteger contra tudo e todos é manter-se centrado, é falar com polidez e concisão somente aquilo que for necessário, e nunca querer agradar, ou convencer ou ludibriar com palavras inúteis. É preferível antes poupar a energia para fazer algo de útil para si mesmo. - Se tu não foste capaz de se tornar monstro quando em companhia de monstros, se não te tornaste fera no meio das feras, então te afasta o mais rápido que puder antes que te engulam. -
Deixe que a vida, as escolhas e o tempo ensinem aos outros as suas próprias lições. Não queira ser maior do que pode ser. Você que busca incansavelmente essa harmonia entre os seres humanos, não seja tão vaidoso a ponto de acreditar que você tem o mesmo poder que uma bela lição de vida, você não é mais sábio que o tempo (ou Chronus – o Deus que devorava os seus próprios filhos). Busque a sua própria independência, desacorrente-se da dependência que você tem em relação aos outros. Não tenha medo da solidão, pois ela pode um dia surpreendê-lo!