quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Dos Recursos que se tem para viver

A palavra vita, ou vitae, do latim, de onde se originou a palavra vida em português, antes de possuir a conotação de viver (conjunto de propriedades e qualidades graças às quais animais e plantas se mantêm em contínua atividade), era utilizada para descrever os recursos de subsistência. Em um sentido mais moderno, poderíamos aplicar tal significado para descrever os recursos intelectuais que uma pessoa tem para poder viver e fazer da sua existência melhor ou pior. Uma visão Schopenhauriana da vida com sentido de ”recursos” seria interpretá-la da seguinte maneira: “O mundo no qual cada um vive depende da maneira de concebê-lo, que varia, por conseguinte, segundo a diversidade das mentes. Conforme estas, ele será pobre, insípido e trivial, ou rico, interessante ou significativo”. Ou seja, o invejoso, ao invés de despender todas as suas energias odiando o outro, deveria usá-las de forma a atingir o que mais ele valoriza. Entretanto, os recursos de uma pessoa invejosa são escassos em demasia, e a sua única “ação” é a de observar os grandes feitos dos outros para posteriormente criticá-los e botar-lhes defeitos inexistentes. O invejoso estimula a sua antipatia pelo simples fato de encontrar alguém que reconhecidamente é superior a ele. Ele sente apenas um sentimento de sua gritante inferioridade, uma inveja surda e secreta a qual tenta esconder, no entanto demonstra inconscientemente através de suas atitudes, críticas, comentários e observações. O glorioso, ao contrário, admira no outro os seus grandes feitos e usa isso a seu favor, como fonte de inspiração para alcançar o que mais aprecia. A ação gloriosa vem da admiração e não do ódio invejoso. “Recursos”, em ambos os casos, são a forma que se vê a vida e a forma que se age de acordo com essa visão.
Logo, as ações do invejoso delineiam o seu estado espiritual. A futilidade, a limitação e a pequenez de certas pessoas devem-se ao fato dos míseros recursos que estas possuem. E a grande maioria das pessoas que habitam este mundo é medíocre, nas palavras de Schopnhauer, filisteus, isto é, homens sem necessidades espirituais. Já aquele de grande inteligência tem um grande fardo para carregar, pois quanto mais inteligente, mais sensível, e a sensibilidade deveras ocasiona momentos de dor intensa.
Devido ao fato de cada ser humano ter a sua medida de recursos, cada um só pode reconhecer no outro aquilo que este é, assim falou Schopenhauer: “ninguém pode ver acima de si, com isso quero dizer, cada pessoa vê em outra apenas o tanto que ela mesmo é, ou seja, só pode concebê-la e compreendê-la conforme a medida de sua própria inteligência”. Podemos observar nas atitudes humanas que os críticos mais acirrados dos outros parecem estar falando de si mesmos, ou seja, os defeitos que se critica em seu semelhante na verdade são os seus próprios defeitos. Quem vê maldade em toda a ação humana é aquele que somente pratica atos com os quais poderá obter alguma vantagem posterior. Quem acha que todos têm inveja dele, na verdade inveja a todos. O que acredita que todas as pessoas são luxuriosas, tem dentro de si os mais perversos desejos, e assim por diante. Se quiser conhecer o defeito de uma pessoa, observe o que ela critica nos outros. Ela está indubitavelmente falando de si mesma, de seus próprios defeitos ou de seus desejos inconscientes os quais guarda a sete chaves, mas que são latentes em seu consciente.