quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Por que não somos livres?


Eis uma pergunta que dificilmente será respondida de forma apropriada. Mas farei um pequeno esforço para deixar claro como penso tal questão, embora tenha que ser simples e alguns detalhes poderemos esclarecer com nossos comentários, os comentários que meus leitores fazem acerca de meus escritos têm feito com que eu possa refletir a partir de outros ângulos, outros pontos de vista. E isso, para mim, é uma experiência enriquecedora e memorável. tentarei ser breve e concisa.

Como minha formação é em letras, tenho sempre uma certa tendência em partir pelos discursos. Já escrevi aqui alguns textos sobre determinadas palavras e suas respectivas etimologias, dessa forma conseguimos adentrar no mundo obscuro das palavras e seus significados mais profundos. A análise discursiva pode parecer, a priori, uma verificação do mundo sem nexo, sem contextos, porém, se pensarmos em nosso cotidiano, o que move todo o nosso sistema? A linguagem e os discursos formados a partir dela. Não seríamos potenciais consumidores se não acreditássemos que tal e qual produto no é necessário, que tal e qual ideia é essencial para nossa existência...

Não sou grande conhecedora de Karl Marx, mas do pouco que conheço de sua obra posso ressaltar que o autor distinguiu o nosso mundo em duas partes: a infraestrutura e a superestrutura. A partir dessa divisão, muitos linguistas de cunho marxista começaram a estudar a superestrutura a partir dos discursos sociais que permeiam nossas vidas: O discurso religioso, o discurso das classes, o discurso familiar, entre outros. Só para quem não conhece nada sobre materialismo histórico, a infraestrutura são os meios materiais que temos: o solo para a plantação, a água para geração de energia (entre outras coisas), a madeira para fabricação de utensílios, o ferro, o bronze, o ouro, ou seja, tudo o que existe de material. A superestrutura são as ideias, a partir de uma concepção, ao observar um pedaço de madeira, podemos imaginar que, com ela e por uma necessidade nossa, podemos criar objetos. Então cria-se uma cadeira, uma colher, uma mesa. Durante a era do ferro, criaram-se espadas, martelos, utensílios para garantir a sobrevivência, além da utilização prática. Mas superestrutura também é a forma de conceber o mundo e o que está em nosso entorno: cria-se então Deus para explicar o trovão, a enchente, a guerra, as pragas. 
Através do conhecimento da linguagem, é possível "moldar" os pensamentos e a cultura. E guiados pela história geral, percebemos que essas concepções de mundo, universo, mercado, riqueza, religiões, entre outras formas de pensamentos sempre estiveram nas mãos de quem detém o poder. Se na sociedades antigas o poder era conquistado pela espada, em nossa realidade o poder centra-se nas mãos dos políticos, empresários e banqueiros e a mídia. (obviamente tal explicação é muito simplista, mas meu intuito aqui não é escrever uma tese). 

Passemos agora a pensar na questão do poder. Poder já foi definido por inúmeros pensadores, sociólogos, filósofos entre outras pessoas, também não poderei me aprofundar aqui. Tomemos Poder, em nosso pensamento, como "controle" ou "domínio" que um grupo de indivíduos exerce sobre outros grupos. Para exemplificar de forma simples, imaginemos uma fábrica a todo vapor, produzindo mercadorias que serão vendidas e darão lucro àqueles que detém o controle. O trabalhador que produz recebe apenas um valor simbólico pelo seu trabalho, mas jamais poderá imaginar o valor real de sua produção, pois esse valor será embolsado por seus patrões. Esse tipo de poder exploratório é a engrenagem que movimenta o sistema capitalista bem como o domínio de nossas mentes a partir de ideologias estabelecidas pelos que controlam o sistema.

Imaginem o que acontece na editoração de um determinado jornal. Vocês realmente acreditam em "imparcialidade"? Vocês acham que quem escreve uma determinada notícia tem a liberdade de expressar o que pensa? Eu, por exemplo, seria demitida em algumas horas se tivesse que redigir determinados acontecimentos. O dono do jornal tem interesses e quem anuncia nesses jornais têm interesses semelhantes: lucro, lucro, lucro! Se um determinado governo é achincalhado no jornal, vocês realmente acham que é pura informação? Ou acham que interesses maiores estão por trás disso tudo? 

O controle de nossas mentes é muito simples, é a partir de discursos e boa argumentação que se constrõem edifícios de ideologias errôneas, de ilusões, de distorção de realidades. E obviamente quando se tem o poder de controlar a mente, controla-se indiretamente as ações. exemplo disso: Natal! Estamos chegando perto dessa data tão vangloriada pelas elites e pelas massas. Apenas um dia que detém um potencial de vendas absurdo. Basta visitar um Shopping Center ou a 25 de Março para se ter uma ideia. Como somos persuadidos a pensar nesse dia como "algo especial", nossas ações nos levam a comprar compulsoriamente e compulsivamente. Eis um pequeno exemplo de ideologia que controla as ações. Obviamente que o natal é um grande espetáculo, mas o nosso dia a dia também não fica vazio dessa influência superestrutural. por que lavamos a roupa com Omo, Ariel, ou Ypê, se com gordura e soda cáustica podemos criar nosso próprio sabão? E porque usamos roupas assim ou assado? Para pertencermos! Já viram o comercial das lojas Renner? Lá você encontra o estilo de roupa que lhe bem agradar. Sim, eles dizem que lá eles tem um estilo para cada um de nós! Mas o lucro, é claro, fica nas mãos de grandes acionistas da loja!

Por que temos que pertencer a determinado grupo? Porque todos os grupos são determinados por inteligências. Todos nós usamos papel-higiênico e sabonetes. Temos a mesma necessidade em usar sapatos (rs), a mesma necessidade de dormirmos com travesseiros e lençóis. 

Sou livre porque posso optar em comprar um Vivo, um Claro, um Tim? Ou Lacta, Garoto e Nestlé? Sou livre porque posso ter um Ourocard? um Visa? um Mastercard? Posso escolher pagar em 10 vezes sem juros? Não existe necessidade de coibir, de doutrinar ou manipular, estamos todos inseridos, somos meros clusters de um computador gigantesco e cada um de nós têm sua função dentro desse sistema bizarro.A mídia faz o papel de persuasão, mexendo com as nossas emoções como no comercial da Johnsons, com nossa razão como no comercial da Oral-B, com nossa criatividade como no comercial da Natura.

O poder se centra em um triângulo composto, de um lado, pela política, do outro a mídia e na base o mercado. Diferentemente da religião, não existe um serzinho que domina tudo isso, e sim essas três classes que se sustêm a partir da superestrutura que já está estabelecida. As ideologias são construídas, tijolo por tijolo. Mas quem sabe um pouco de história compreende que um sistema não pode durar para sempre. Você acha que sua sacolinha plástica vai destruir o planeta? Relaxe, o planeta já está sendo destruído pela ganância das três classes dominantes!

Queria escrever muito mais, mas acho que o post já está grande o suficiente para causar preguiça de ler.... Agradeço aos que tiveram paciência em chegar aqui e espero seus comentários!