domingo, 30 de dezembro de 2007

Sobre a falsidade

Lembro-me de quando eu era criança, tinha a impressão qe todas as pessoas que me agradavam, que me eram gentis, realmente gostavam de mim. Fui crescendo e a medida em que fui me relacionando com os seres humanos, comecei a ter a sensação de que nem sempre quem nos trata bem, quem nos elogia, está sendo verdadeiro. Por um grande período de tempo comecei a ficar desconfiada das intenções dos outros. A minha adolscência e início da fase adulta foi tumultuada por acontecimentos dos mais diversos. Todas as vezes que alguém se aproximava de mim, tinha uma forte impressão de que ninguém dava ponto sem nó, ou seja, todo o elogio, todo o ato de bondade e generosidade, por trás, tinha uma intenção pérfida. no entanto hoje eu começo a perceber uma característica que está em todas as pessoas: elas são duais. Por essa razão, fica difícil julgá-las quando elas estão sendo verdadeiras ou quando, no fundo, elas tem alguma intenção encoberta. Essa dualidade, segundo a psicanálise, consiste em uma característica peculiar: todo o ser humano tem a necessidade, por um lado, de se relacionar com os outros, de manter contatos, por isso os homens vivem em sociedade. O ser humano tem necessidade de comunicar-se. A presença do outro é essencial. Por outro lado, o narciso de cada homem se conflita vorazmente com a presença do outro. o outro nos incomoda na medida em que ele nos delimita, a presença do outro é um golpe ao narcisismo. o contato com o outro coloca-nos em uma situação de rompimento com a plenitude do Eu, colca-nos frete a frente com o reconhecimento do Eu e do não-Eu. muitas vezes nosso ego precisa aniquilar o outro dequalquer forma, pois ele nos anula, nos ameaça. Se o outro desfruta de uma vida melhor que a nossa, então aí é que esse mecanismo de destruição que existe dentro de cada um de nós começa a pulsar incansavelmete, pois se ele pode desfrutar de uma vida boa, o que será deixado para mim? Claro que isso é conscientemente negado com a afirmativa de que no mudo há espaço para todos nós. Entretanto esse sentimeto de aniquilar o outro está presente instintivamente, querendo ou não. Como se explicar, por exemplo, casos tão cotidianos de uma pessoa puxar o tapete da outra na vida profissional, ou na vida familiar ou na vida afetiva??? Se há, realmente, espaço para todos? Se a resposata fosse firmativa, isso não faria sentido. Todos nós somos tomados por esse sentimento, que é um instinto, de aniquilar o outro para grantirmos o nosso. Essa é a ambivalência do ser humano: por um lado, queremos manter nossas relações sociais, queremos estar sempre rodeados de amigos, de familiares de pessoas em geral. Por outro lado, somos como porcos espinhos (Assim falava Schopenhauer) que necessitam do calor dos outros mas mesmos assim não conseguem deixar de espetar uns aos outros. Hoje quando alguém (que já tenha me dado "espinhadas" antes) me parece ser demasiado gentil, não mais encaro como falsidade. Percebo que no fundo as pessoas estão sendo siceras, no entanto, quando se confia demais na sinceridade alheia, esteja preparado para levar uns belos cutucões! as pessoas são duais.