quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

A Cultura do Narcisismo

Existe uma teoria da psicanálise que trata o complexo de Narciso. Essa teoria mostra que, ao nascermos não sabemos distinguir o que sou Eu e o que é o Outro. Nesse período, temos a sensação de que tudo a nossa volta - o seio materno, o colo, o ambiente - faz parte do Eu. Através do tempo, com alguns mal-estares que vamos sentindo - como a fome, o frio, o desamparo - acabamos por descobrir algo que nos será um grande peso por toda a nossa vida: descobrimos a diferenciar o Eu e Outro, percebemos que não temos controle total da situação que as ocorrências externas estão fora de nosso alcance. Isso é o primeiro golpe em nosso ego. Essa explicação simplista serve para desenredar o argumento desse ensaio: Com a falta da repressão externa que o mundo contemporâneo nos proporciona - ou seja, em nossa sociedade atual, não temos mais valores grandiosos de ética e moral compartilhados por todos - os indivíduos tendem a cada vez mais pensarem somente em si mesmos, a cultuar uma vida egoísta e egocêntrica: somos uma sociedade narcisista. Cada qual apenas visa o seu próprio prazer, a sua própria vontade deve reinar, onipresente e onipotente. Estamos nos tornando cada vez mais solitários, cada vez mais temos ódio dos outros, cada dia somos mais arrogantes e acreditamos que somente o que nós pensamos ou acreditamos é o certo. Com a filosofia (pós) moderna, aprendemos que não existem mais verdades absolutas, aprendemos que não existe mais um "centro do universo" decobrimos novas culturas, algumas novas e outras até milenares não-canônicas. No entanto, cada vez mais agimos em prol de nosso próprio benefício, agimos para obter prazer imediato (I'm free to do what I want - tenha um Visa na mão!). Nossas atitudes não levam em consideração o próximo, isto é, não importa se o outro vai sofrer ou não, eu faço o que quero da forma que quero. Ouvimos até mesmo dezenas de vezes as pessoas falarem "sou mais eu"... Nós compramos tênis nike mesmo sabendo que ele é fruto de uma escravidão silenciosa lá na China ou na Coréia. Nós compramos coisas pelas imagens e não pela qualidade ou necessidade. Compramos marcas e não produtos. Compramos compulsivamente o que a televisão nos mostra nos prometendo felicidade imediata, conforto e amor. Compramos coisas simbólicas, pois a vida real é dura, é difícil, é massacrante. Na vida real não temos carinho, não temos conforto não temos estabilidade e todas essas "garantias" que os produtos da mídia nos oferece. Enfim, as outras pessoas nos incomodam, nós incomodamos as outras pessoas, vivemos fugindo uns dos outros embora ainda tenhamos um instinto que nos faz ir atrás de outros seres humnos... Mas é inegável como reparamos os defeitos alheios, como eles nos incomodam! Como odiamos diferença! Como odiamos quando alguém pensa diferente e nos quer "pregar" os seus pensamentos ou os seus ideais ou apenas as suas idéias! Como o convívio se tornou intolerável! Vemos até mesmo pais e filhos fugindo uns dos outros. marido e mulher que moram em casas separadas ou que dormem em quartos separados. A última moda é ser sozinho, e a tendência é que os seres humanos cada vez se descentralizem mais e mais, até um dia o que Samuel Beckett escreveu em sua peça "End Game" se torne real: o mundo será apenas cinzas e tudo a nossa volta terá cheiro de carniça!