quinta-feira, 17 de abril de 2008

O Relógio

O relógio quebrado
é o relógio perfeito
não cobra, não faz lembrar
não apressa, não faz perceber,
A inutilidade da existência
A incapacidade do ser
A inverossimilhança da essência
A imprecisão do tempo
Que é preciso para existir,
para ser, para transcender
O relógio trabalhando devoracada minuto de alegria
cada instante de prazer
mas traz consigo a eternidade
que ainda resta
a possibilidade certa de sofrer
Não, não se pode viver o momento
sobrevive-se a ele
E cada frustração superada
há milhões de outras por vir
Inconcebível é saber a verdade e com ela conviver
Impossível é ver a verdade, e nela poder crer
Incompreensível é a verdade do relógio
Que em sucessivas pancadas,
Martela os pregos de um futuro de desgraça certa.
O relógio quebrado, enfim,
É um relógio perfeito.