quarta-feira, 30 de abril de 2008

Sabedoria

A filosofia vem da dor. Na alegria, não há questionamentos profundos. Quando se está infeliz, no entanto, é necessário parar e questionar-se, perguntar os porquês. Um bom exemplo é a bela história de Buda, cuja vida até até os 29 anos de idade era apenas felicidade e harmonia. Ele desconhecia a miséria humana até que um dia saiu de seu palácio e viu o sofrimento dos mendigos e dos leprosos. Viu também um carro fúnebre e descobriu que havia a morte. Depois de conhecer a dor, a miséria, a doença e a morte, Buda largou tudo o que tinha: riquezas, uma vida confortável, suas jóias pedras preciosas e sua espada. Deixou o seu palácio, vestiu um manto e partiu em busca de respostas para todas essas coisas ruins que até então eram-lhe desconhecidas. Outra história metafórica que pode ser mencionada a esse respeito é a de ; ele tinha fortuna, escravos, propriedades e uma bela família. Poderíamos dizer que conhecia intimamente a felicidade. Diz a Bíblia que era um homem justo, amado por Deus. Até que um dia Satã diz a Deus que é-lhe fiel apenas porque é feliz, tem propriedades e gozar de plena saúde. Deus então resolve testar a fé de seu protegido. Os filhos de são mortos, ele perde seus escravos, seus animais e suas propriedades, e para piorar ainda mais, fica doente. A partir daí, ele começa a questionar a existência. É uma das mais belas passagens da bíblia. lamenta-se de ter nascido, de existir, de sofrer. Começa, então, a questionar-se intensamente sobre o sentido de todas as coisas.
Claro que todos nós, seres humanos, buscamos incessantemente a felicidade. Queremos fugir da dor a qualquer custo. Mas a felicidade é um sonho inatingível. É um oásis no meio do deserto que, quando se chega perto, desaparece. Nunca estamos felizes de verdade. Nunca seremos felizes de verdade. Algumas pessoas vivem na ilusão. Essas pessoas fecham os olhos para o mundo que as cerca, pois elas tem uma vida relativamente confortável. A infelicidade dos egoístas provém de sentimentos baixos e mesquinhos: inveja, ciúmes, orgulho e vaidade. A infelicidade das almas nobres, não obstante, provém de sentimentos sublimes: do inconformismo perante a cruel condição dos seres humanos em geral, a visão da degradação do mundo, o descontentamento com as diferenças impostas pela natureza...
Os egoístas vivem em seu pequeno mundinho, preocupando-se apenas por não terem a melhor televisão do mercado, ou um carro mais caro e chamativo. O egoístas sofrem excessivamente porque invejam o seu próximo, porque querem ter aquilo que o outro tem e ficariam muito mais felizes se vissem o seu rival perecer na pobreza. O egoísta tem ciúmes de tudo e de todos. Ele acredita que o mundo deve girar em torno dele. Enfim, esse ser sofre de uma pobreza espiritual e intelectual gigantesca. Um ser desse tipo jamais se preocupará com aquilo que acontece lá fora, jamais conseguirá sequer pensar de modo filosófico.
Por outro lado, os seres superiores entristecem por que reconhecem a injustiça, a maldade, a miséria e a dor. Entretanto, seres assim são raríssimos de se encontrar. Talvez um em cada milhão de pessoas. Esses são os verdadeiros gênios da humanidade, são os únicos que conseguem transcender a realidade cega. Esses seres aprendem que a dor é necessária, que só através dela é que se encontra a verdadeira sabedoria de vida. Aprender a sofrer é aprender a viver, já que a vida é dor, como dizia o nosso grande pensador. Se existe vida após a morte, onde se poderia levar todo o aprendizado de vida que adquirimos em nossas existência, não sei responder. Apenas sei dizer que quando se consegue enxergar além das fronteiras, para além do mundano, do medíocre e do mesquinho, nossas vidas começam a ser mais significativas. Começamos a nos tornar fortes e independentes, conhecemos o lado negro de todos os seres humanos e não mais nos desiludimos com essa natureza vil.
Aprendemos que a dor faz parte da existência e que o sofrimento bem canalizado traz consigo grandes conhecimentos, grandes sabedorias de vida. Essa é a maior riqueza que se pode acumular ao longo da vida.