domingo, 6 de abril de 2008

Tudo está morrendo...

Na beira do precipício, entre a cruz e a espada, vive uma alma amargurada, perdida em sonhos vãos. Lúcida e melancólica, uma alma que caminha lânguida, amolece, cai, levanta, sacode e persiste em caminhar. Caminhando em um deserto sem fim, durante o dia, um sol escaldante, à noite, um frio inebriante. "Desista de caminhar! recolha-te em teu ninho", dizia uma voz. A amargura, a melancolia, a tristeza são os males da alma - a bile negra que não cessa nunca. Entre o estômago e a garganta, um vômito que não sai, uma ânsia que faz o corpo todo contorcer-se. Entre a garganta e a boca, uma palavra que fraqueja e não sai. Entre a minha boca e tua orelha, um mundo eterno e sem fim. O cansaço não abandona o corpo. o suspiro sai do peito apertado, a luz ofusca a visão. estou doente, prestes a morrer. Antes de meu corpo, meus sonhos, minha fé, minha esperança, a minha vida morreram. Tudo está morto. O silêncio persiste. E a alma amargurada, aos poucos, vai se desfazendo, despedaçando-se, até o fim. Como não lamentar a existência e o sofrimento inúteis? Maldita a noite em que fui concebida, maldito o dia em que nasci. A natureza devia estar realmente furiosa ao criar-me no ventre de minha mãe. Da luz ao charco de lama, foi a trajetória que escolhi, pois nunca quis estar entre o povo da mansarda. Escolhi para mim a minha própria miséria, não precisei recorrer à miséria da religião, ou da massa, ou de qualquer outra fonte. E vivo, então, a lamentar-me. Não creio que um passarinho consiga apagar sozinho o incêndio da floresta. Desisti a muito de ser esse passarinho. Recolhi-me e não vôo mais. Estou no meu ninho a contemplar a destruição de tudo aquilo que me cerca, e a desgraçar toda a raça que pesiste em não enxergar o seus erros mais vís.