sexta-feira, 16 de maio de 2008

Aborto

Naquela tarde senti-me um aborto que não deu certo, senti-me um filho bastardo. Não consegui chorar. Apenas senti. Olhei para a minha vida e pensei comigo "Mas que merda é essa? Por que diabos eu ainda estou aqui?". Senti-me culpada por toda a situação em que me meti. Depois um brando ódio começou a se apoderar lentamente do meu estado emocional. Logo esse ódio se transformou em fúria e eu liguei para xingar o maldito desgraçado que não soube matar direito um feto depreciável. Maldito! Se tu tivesses atendido esse maldito celular! Eu teria vomitado tudo em tua orelha! Senti-me, então, frustrada e novamente pensei em um aborto. Quem me dera ser um aborto! Morto morto e morto para sempre! Não haveria de espionar a vida privada dos outros, não haveria de ser tão humilhada, não haveria de ficar mendigando pelas ruas os restos de pão que o diabo cuspiu. Eu sempre soube de minha condição, mas apenas hoje me dou conta dessa situação lastimável. Apenas agora sinto a gravidade do que acontece... Somente hoje tomei consciência de acontecimentos tão bárbaros que aconteceram em minha vida. Imagine você na seguinte situação: você nasce mesmo não querendo nascer e, pior ainda, mesmo sendo uma tentativa de aborto mal-sucedida. Nasce sem a mínima consciência de que ninguém nunca jamais quis que você nascesse. Enfim, você nasce na pior das condições de um ser humano - rejeitado desde a barriga. Então você cresce em meio dessa turbulência toda. Depois você descobre que um dos seus progenitores construiu uma família a qual ele preza muito e ama, a qual ele sempre cuidou e sempre cuidará. Você descobre que você atrapalhou os planos de seus pais biológicos, pois eles não estavam afim de você na vida deles. Então você passa a sua vida se arrastando, pedindo um mínimo possível de atenção, um mínimo possível de carinho, de conforto e de proteção, coisas que sempre lhe foram negadas, mas você nunca soube por quê. Você passa sua vida inteira, vinte e oito anos se perguntando por que, por que por que. Você nunca descobre . Você gostaria de entender quais as razões de tanto desprezo. A única coisa que você consegue descobrir é que não há razão nenhuma. Depois você pensa e pensa e pensa até que acaba por concluir que, na verdade, você é apenas um aborto. Sim! Sou um aborto, por esse motivo nunca pude compartilhar das coisas boas da vida: nunca pude passear na praia, nunca pude andar de carro, nunca pude estudar nas melhores escolas, nunca pude ter o que eu queria, nunca pude usar um perfume importado ou uma roupa de marca. Eu nunca pude chorar no colo de alguém que verdadeiramente me amasse. Eu nunca tomei uma bronca porque tirei zero na prova ou porque fiz bagunça na escola. Eu nunca pode pedir um brinquedo que eu queria ganhar do papai noel. E o mais duro é saber que tudo isso e muito mais foi feito para a outra família. Cheguei ao ponto de pensar que eu era a culpada de tudo. Na verdade eu não sou nada, nunca serei nada, pois sou mesmo um aborto.