sábado, 19 de julho de 2008

Monólogo de um corpo sem alma

Quanto mais tento fugir de mim mesma, mais eu descubro quem eu sou: uma assombração que vive a me perseguir!
Acordei hoje e me perguntei o que uma pessoa tão maravilhosa quanto eu está, afinal de contas, fazendo num mundo tão maravilhoso e perfeito quanto este em que vivo? Oras, só posso estar fazendo coisas maravilhosas como odiar cada vez mais os meus semelhantes, ou ter cada dia mais fortalecida a minha inveja, ou mesmo aumentar a intensidade da minha gula e de minha preguiça!
Disseram uma vez que eu gostava de chamar a atenção chocando as pessoas com palavras profanas que saiam da minha boca ou de minhas mãos. Quem disse um absurdo desse estava redondamente quadradamente enganado! Claro que isso é uma blasfêmia!!! Nossa, por que eu gostaria de chamar a atenção com coisas tão óbvias e tão singelas como os meus mais puros e límpidos pensamentos! ou com a forma magnânima que enxergo a vida, as plantas e as pessoas tão lindas e perfeitas ao meu redor!!!!Não sou uma pessoa do bem, tão pouco do mal. Eu simplesmente odeio e guardo o meu ódio para mim mesma, sem disseminá-lo contra ninguém, nem mesmo contra a mais vil escória que habita em minha volta. Já fui revoltada, já fui engajada, já tentei mudar e não consegui mover sequer uma palha. Não acredito na mudança, não acredito na beneficência, não tenho fé em nada e não amo ninguém a não ser eu mesma e as extensões de mim. Então que diferença faço afinal? e que diferença você faz afinal? ambos ocupamos espaço no planeta, espaço este que poderia ser habitado por dezenas ou até centenas de árvores, outras dezenas de animais e algumas centenas ou milhares de insetos. Mas tudo bem, me conformo em ser um viveiro ambulante de micróbios, germes, vírus e bactérias que se alimentam de minha matéria prima!
Não tenho talento para música, nem para a arte. Não gosto de trabalhar e nem de me relacionar com as pessoas. Descobri hoje que existem dores piores do que as existenciais e que a melhor dor é aquela que vem quando se está incosciente.Não gosto de cuidar de plantas e nem de animais. Não tenho paciência com a minha família e nem com a família dos outros. Não suporto conversas banais.Tenho todos os transtornos possíveis já diagnosticados por psicoalgumacoisa. Enfim se você chegou até aqui, se você leu toda essa baboseira que é uma breve definição de minha pessoa, quer dizer que você é um ser humano tão normal quanto eu.
Trechos de "Monólogo de um corpo sem alma" de Fabiana Rodriguez