terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Sobre o Filisteu - Arthur Schopenhauer

...Quando muito, restam-lhes ainda os deleites da vaidade, à sua maneira, que consistem em exceder os outros em riqueza, ou posição, ou, pelo menos, resta-lhes travar relações com aqueles que são eminentes em semelhantes excedências, para assim se aquecerem no reflexo do seu brilho. Dessa qualidade fundamental do filisteu que acabamos de expor, segue-se, em segundo lugar, que ele, no que diz respeito aos outros, e já que não tem necessidades espirituais, mas apenas físicas, procurará os que estiverem em condição de satisfazes estas, e não aquelas. Por conseguinte, das exigências que faz aos outros, a menor de todas será a das capacidades espirituais predominantes. Antes, quando estas vão ao seu encontro, acabam estimulando a sua antipatia, até mesmo o seu ódio, porque então ele sente apenas um sentimento maçante de inferioridade, uma inveja surda e secreta, que esconde com extremo cuidado, enquanto procura dissimulá-la inclusive para si mesmo, o que justamente faz com que ela aumente até se tornar uma raiva silenciosa. Como resultado, jamais lhe ocorrerá medir, segundo semelhantes qualidades, a própria estima ou alta-consideração; mas irá reservá-las, com exclusividade, à posição e à riqueza, ao poder e à influência, que para seus olhos são os únicos méritos verdadeiros, nos quais também gostaria de se distinguir. Tudo isso decorre do fato de que o filisteu é um homem sem necessidades espirituais.
In: Aforismos para a sabedoria de vida, p. 47-8