segunda-feira, 12 de março de 2012

A chuva de 12 de março



Dois dias após meu aniversário cá estou eu, ouvindo Nat King Cole e uma chuva tão interessante lá fora que não pude deixar de lado minha vontade de sofrer. Resolvi escrever para o sofrimento parecer menos tenso, menos rígido, pois tenho a sensação de que o estou compartilhando. Não importa se estou dividindo isso com o teclado ou com a tela, com o provedor do blog ou qualquer outra alma penada que possa um dia cair sem querer por aqui e ler esse pedacinho de tristeza regada à chuva. O importante é que as palavras me saem pelos dedos como se o teclado fosse os ouvidos de um treinado terapeuta e a tela seus olhos analíticos a me espreitar.

Mas o que vim falar hoje aqui é sobre o que sempre falei. Sobre a dor de não pertencer. Tenho andado todos os dias pelo centro de São Paulo, e vejo as pessoas no metrô, é inevitável pensar comigo mesma que quando as olho não sei se tenho mais pena de mim, que me sinto um alienígena no meio delas ou se tenho pena delas, que parecem robôs programados para sair e entrar nas catracas, seguir um rumo tão conhecido que chega a ser enfadonho: rotina. Acabo sentindo pena de mim mesma, como uma típica psciana, eu é quem sou anormal ali. Todos estão no padrão, eu estou fora daquela realidade que me aterroriza mas que no fundo invejo por não poder tê-la como minha verdade soberana. Gostaria de ter essa verdade soberana, quem sabe não me sentiria assim, como uma gota de enxofre no meio de águas cristalinas, ou uma gota de água no mais corrosivo ácido que já se viu pelo planeta...

A chuva passou, a canção terminou e o silêncio que invade meu pequeno espaço me faz pensar e pensar que a solidão é boa quando podemos dividí-la com alguém. Mas como se divide a solidão? um mais um são dois e dois não estão mais sozinhos. Mas um dia eu soube dividir a solidão porque encontrei alguém que vivia tão só quanto eu vivo. Não se acostuma uma criatura tão solitária a largar de vez a solidão e compartilhar. Eu não aprendi, nunca irei aprender. E por isso aquela velha canção do Nat king me parece tão sincera: quando eu me apaixonar, será para sempre ou eu nunca irei me apaixonar. Como sou loba velha, tenho a plena certeza de que nunca vou me apaixonar mesmo! E nesse meio tempo, entre a vida vazia que levo e a morte que me espera, eu vou caminhando e cantando e seguindo como se fizesse parte de tudo que está lá fora, mesmo com meus pensamentos tão distantes...