quinta-feira, 24 de maio de 2012

As paredes de minha casa estão todas mofadas, isso todo mundo pode ver, todos olham e dizem que devo pintá-las, arrumá-las. Mas gostaria de saber porque ninguém enxerga uma alma apodrecendo lentamente, sendo devorada pelos vermes da solidão, da fadiga, dos desprazes e da miséria. A alma não fede, não tem cor. Apenas aquele que a possui consegue senti-la. Aos pedaços, sinto a minha desmoronar por tanta tempestade, por tanto lodo e tanta degradação. Queria chorar, mas meu olhos secaram. Queria gritar, mas minha voz não sai. Queria morrer, mas a morte cisma em não me arrancar deste corpo maldito.

Certo dia perguntaram-me por qual motivo eu ainda teimava em escrever essas asneiras todas, esses lamentos ocos, pois minha vida, vista de fora, parece uma maravilha. Eu não soube responder. Pensei. Meus cadernos debaixo da cama poderiam me responder, mas foi ao tocá-los que senti que escrever era meu único prazer, escrever sobre as desgraças, sobre a miséria humana, sobre a minha própria miséria. Assim como as pessoas trabalham para comprar iphones, roupas de marca, eu escrevo para me sentir um pouco melhor, se é que posso dizer que realmente me sinto melhor mesmo. Eu só quero pensar, e jorrar o que penso pela caneta e nada mais. Não preciso de leitores, apenas de papel e caneta. Oh, reclamem com a minha distimia! 

Fecho os olhos e tudo me parece tão distante, tão indiferente, abro os olhos e a cabeça começa a doer novamente, mais uma crise de enxaqueca. Vou tomar um remédio na esperança de que ele cure não apenas a dor física, mas também a dor insuportável de ser quem sou.