terça-feira, 13 de novembro de 2012

pequenas mortes


Aos poucos fui percebendo que, enquanto vivia, ia lentamente padecendo até a pequena morte chegar. Minha primeira morte foi um abandono cruel, aos cinco anos de idade talvez. Foi neste dia que senti o peso da mão nefasta, mas apenas com o tempo eu me senti um cadáver em descomposição chegando ao absoluto nada. Eu morri para ele. Depois morri para meus colegas e professores primários, eles não lembram mais de mim, talvez em alguma ocasião ou outra, assim como lembramos de nossos parentes mortos literalmente, assim, ao acaso.

Depois morri para os colegas da faculdade. Alguns, muito poucos, ainda levaram flores ao meu túmulo, talvez por alguns meses, até que eu caí em completo esquecimento. Eterno esquecimento. Logo morri para as escolas onde trabalhei, uma a uma, morri sem deixar nenhuma saudade. Depois morri na Universidade onde trabalhei, e morri triste, muito triste de ter passado assim por tantas mortes sem ao menos pertencer a uma única família que fosse por mais de 5 ou 6 anos.

Morri para amigos que já não me procuravam mais, pois minha decadência financeira e psicológica eram pesadas demais para serem carregadas. Eles simplesmente abandonaram o corpo ali, jogado, sem mesmo fazer uma pequena prece. Tornei-me enfim peso morto até para mim mesma. Um corpo que agora almeja ser enterrado com um mínimo de dignidade. Pelo menos um caixão e alguns cravos é o que peço. 

Cair no esquecimento nosso de cada dia, são essas pequenas mortes, talvez que nos preparam para a grande e verdadeira morte. Morri para a sociedade toda, mas meu espírito ainda vive trancafiado nesse corpo e enquanto ele não parte, estarei aqui a refletir sobre todas as mortes que vivi!