sábado, 9 de agosto de 2008

Depressivos

Se eu pudesse arrancar, lá do fundo abismal da alma, todos os medos, as angúsias, o sentimento de inutilidade... Se eu pudesse transformar os pensamentos negativos, se eu pudesse ver nas pessoas não inimigos, mas companheiros de jornada, talvez a existência se tornaria um fardo muito menor, talvez um fardo muito pequeno. Mas a constante impressão que tenho é de que venho carregando há muito uma cruz gigantesca, muito maior do que a minha força e capacidade. Não quero ser um Cristo, nunca serei um Cristo. Mas a metáfora da cruz cai bem para designar o peso que a existência tem me causado. Interessante saber que as pessoas se afastam por completo de seres estranhos como eu quando conhecem esse lado abismal. Talvez elas sintam medo de despertar os mesmos sentimentos dentro delas mesmas, ou talvez elas não compreendam o valor simbólico de uma depressão. As pessoas costumam achar que nós, depressivos somos pessoas mimadas, pessoas que se colocam em uma situação difícil e não fazemos o mínimo esforço pra sair dessa penosa jornada. Mas lá no fundo, o depressivo não pode ser outra coisa, pois o mundo lá fora é ameaçador e falso. O mundo lá fora é cheio de víboras sedentas por vingança, sarcasmo e humilhação... Mas o pior de tudo é saber que nada faz sentido, que a existência não passa de um grande absurdo o qual não se pode controlar... Um imenso engano...

O que fazer?

O que fazer quando algo inexplicável nos sufoca? algo estranho na garganta, um gosto amargo na boca, o que fazer? E quando os gestos do corpo se paralisam, a força se congela, a intenção se esvai? o que fazer? A quem devo recorrer no monento de angústia e desespero, quem poderá salvar o mundo? quem poderá me salvar? E quando tudo aquilo que nos envolve não faz mais sentido? e quando um turbilhão de idéias invadem a nossa cabeça e não conseguimos concretizar nenhuma delas? E o que fazer quando o mundo ao nosso redor começa a desmoronar e percebemos que o centro não mais se sustenta? Sentar e esperar? Lutar mesmo sabendo que tudo não passa de um grande pesadelo? Matar-se? Eu olhei a luz maior, eu olhei dentro do abismo, a luz maior me cegou e o abismo me engoliu. As minhas forças, jamais soube o que quer dizer a palavra força, pois nunca a tive. Sempre me conheci por ser um ser frágil, uma pequena lesma sem o seu casco... Sempre me conheci por aquela coitada que não teve pai, que foi criada pela avó enquanto a mãe trabalhava. Aquela que foi escarnecida na escola, humilhada e ofendida pelo resto do mundo... aquela que sempre baixou a cabeça e teve crises de tremedeira por MEDO, por PÂNICO! Eu não aguento mais esse pesadelo. Já não tenho mais ilusões sobre o futuro e renego o meu passado. Eu já caí de nuvens e de árvores secas. Já me banhei no mesmo rio por mais de um milhão de vezes. Já colhi flores no cemitério, já chorei por ser quem sou. Hoje eu não me envergonho mais, hoje eu não temo mais... sou apenas uma alma perdida e solitária em busca de abrigo...