sexta-feira, 25 de maio de 2012

Os outros...

Lástima! Os indivíduos só dão valor àquilo que não têm. Quem teve amor, carinho, solidariedade, fez disso tudo um livro velho, sem nada de atrativo, apenas acúmulo de pó. Quem fez lágrimas verterem, quem recebeu apoio incondicional, ao esquecimento mandou alguma lembrança qualquer, e os olhos disseram que nada disso tinha valor algum. Esses olhos voltaram-se a pequenos deslizes que todo ser humano há de cometer, querendo ou não, sabendo que pratica a mal ou não. Mas basta! Não se pode desejar o infortúnio, não se pode desejar o sofrimento, agora é hora de focar o rosto no próprio espelho, do qual jamais deveria-se ter desviado o olhar. Quem parte, leva consigo o coração esmagado, surrado e violentado, pois da candura que neste habitava, nada restou. Não é ódio, não é tristeza, é a mais dura e amarga realidade.

Misantropia induzida

Veemência demasiada enfastia, sorrisos forçados deixam o lábio rijo cedo ou tarde. Lágrimas demasiadas salgam a língua e rasgam a pele do rosto. A idade traz consigo não apenas sabedoria, mas amargura, uma amargura que de tão amarga, não nos deixa mais nada engolir. Às vezes ser o único que se importa entedia. Ser o primeiro a levantar-se e gritar fogo, cansa. Ser sozinho e solitariamente procurar outros sujeitos nos faz sentir cada vez mais vazios. Evaporou-se a vontade do convívio. A saliva humana se torna cada dia mais acre, ácido sulfúrico esguichando em minha face. É preciso resguardar o pouco que ainda resta de energia para mergulhar no próprio abismo, quem lá consegue viver, não há nada do mundo a temer.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

As paredes de minha casa estão todas mofadas, isso todo mundo pode ver, todos olham e dizem que devo pintá-las, arrumá-las. Mas gostaria de saber porque ninguém enxerga uma alma apodrecendo lentamente, sendo devorada pelos vermes da solidão, da fadiga, dos desprazes e da miséria. A alma não fede, não tem cor. Apenas aquele que a possui consegue senti-la. Aos pedaços, sinto a minha desmoronar por tanta tempestade, por tanto lodo e tanta degradação. Queria chorar, mas meu olhos secaram. Queria gritar, mas minha voz não sai. Queria morrer, mas a morte cisma em não me arrancar deste corpo maldito.

Certo dia perguntaram-me por qual motivo eu ainda teimava em escrever essas asneiras todas, esses lamentos ocos, pois minha vida, vista de fora, parece uma maravilha. Eu não soube responder. Pensei. Meus cadernos debaixo da cama poderiam me responder, mas foi ao tocá-los que senti que escrever era meu único prazer, escrever sobre as desgraças, sobre a miséria humana, sobre a minha própria miséria. Assim como as pessoas trabalham para comprar iphones, roupas de marca, eu escrevo para me sentir um pouco melhor, se é que posso dizer que realmente me sinto melhor mesmo. Eu só quero pensar, e jorrar o que penso pela caneta e nada mais. Não preciso de leitores, apenas de papel e caneta. Oh, reclamem com a minha distimia! 

Fecho os olhos e tudo me parece tão distante, tão indiferente, abro os olhos e a cabeça começa a doer novamente, mais uma crise de enxaqueca. Vou tomar um remédio na esperança de que ele cure não apenas a dor física, mas também a dor insuportável de ser quem sou.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

A Carne


Coração arrefece, congela, quebra, rasga o peito, disseca a carne dilacerada. Os olhos tornam-se tão inertes que parecem de vidro, e caem ao chão e quebram e destroem-se. O que resta é essa amargura na boca repugnantemente seca. O cadáver que insiste em andar, o cadáver que não se entrega por completo à terra. Um único suspiro, lento e fraco. O peito cheio de tecido fétido, a carne putrefata... mas ainda há de caminhar sob o sol e a chuva, no verão escaldante e no inverno gélido. Cadáver que ainda há de viver...


FRD