segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Eu...



O tempo e o espaço colidiram e por alguma razão biológica, química e metafísica. Fui concebida e nasci. Um projeto do qual a natureza não se orgulha, pois alguma falha nos mecanismos cerebrais fez com que tal pessoa nascida e bem criada perdesse totalmente algumas características básicas necessárias ao convívio com seus semelhantes. Desprovida da ilusão, que é toda a mágica da existência, torno-me, assim, uma niilista não menos desgraçada que muitos dos grandes filósofos e poetas malditos que parecem compactuar os mesmos sentimentos de horror à vida, os que trago em minha "alma" desde que me conheço por gente.

Pergunto-me: por que uma águia velha abriria suas asas? Por que insistir em ser algo sabendo-se que nunca há de ser nada e nem de querer nada? Apenas arrastando a grande pedra, vai como um Sísifo pela vida.

E se um dia perguntarem-me qual foi meu maior talento, direi com todo o coração que foi não me fazer entender por criatura alguma que habita esse planeta. Se perguntarem qual foi minha maior paixão, direi que foi a de nunca ter me apaixonado. Se me perguntarem qual foi minha grande realização, direi que esta ainda está por vir, e será num dia qualquer, tudo se transformará em um grande e total nada.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

pequenas mortes


Aos poucos fui percebendo que, enquanto vivia, ia lentamente padecendo até a pequena morte chegar. Minha primeira morte foi um abandono cruel, aos cinco anos de idade talvez. Foi neste dia que senti o peso da mão nefasta, mas apenas com o tempo eu me senti um cadáver em descomposição chegando ao absoluto nada. Eu morri para ele. Depois morri para meus colegas e professores primários, eles não lembram mais de mim, talvez em alguma ocasião ou outra, assim como lembramos de nossos parentes mortos literalmente, assim, ao acaso.

Depois morri para os colegas da faculdade. Alguns, muito poucos, ainda levaram flores ao meu túmulo, talvez por alguns meses, até que eu caí em completo esquecimento. Eterno esquecimento. Logo morri para as escolas onde trabalhei, uma a uma, morri sem deixar nenhuma saudade. Depois morri na Universidade onde trabalhei, e morri triste, muito triste de ter passado assim por tantas mortes sem ao menos pertencer a uma única família que fosse por mais de 5 ou 6 anos.

Morri para amigos que já não me procuravam mais, pois minha decadência financeira e psicológica eram pesadas demais para serem carregadas. Eles simplesmente abandonaram o corpo ali, jogado, sem mesmo fazer uma pequena prece. Tornei-me enfim peso morto até para mim mesma. Um corpo que agora almeja ser enterrado com um mínimo de dignidade. Pelo menos um caixão e alguns cravos é o que peço. 

Cair no esquecimento nosso de cada dia, são essas pequenas mortes, talvez que nos preparam para a grande e verdadeira morte. Morri para a sociedade toda, mas meu espírito ainda vive trancafiado nesse corpo e enquanto ele não parte, estarei aqui a refletir sobre todas as mortes que vivi!