quarta-feira, 30 de julho de 2008

À minha querida avó:

A vida, dizem, é feita de ganhos e de perdas. Todos nós nos sentimos extremamente felizes com os ganhos, algumas vezes mais, outras menos. Com as perdas, nos sentimos fracos, impotentes, incapazes. E quando perdemos a pessoa que nos criou, nos deu educação, cultura, carinho? Quando perdemos a pessoa que nos trazia a comida no prato, a água e o docinho caseiro? Quando perdemos a pessoa que nos ensinou a andar, que nos ensinou a levantar quando caímos, a pessoa que nos consolou nos momentos de desespero e agonia? A pessoa que nos dava dinheiro para comprar balas, chicletes, tênis e roupas? A pessoa que ficava brava quando chegávamos tarde de alguma balada? O sentimento que fica é um abismo profundo cujo fim não se pode ver. Ontem, ao caminhar pelo cemitério, comecei a pensar no motivo de tudo aquilo... Por que nascer, crescer, morrer? Para que casas, carros, bicicletas, pipas no céu, antenas de televisão? Claro que esta é a pergunta filosófica mais antiga de toda a história do ser humano. E por que ela ainda continua sem resposta para mim? Se eu fosse religiosa, se eu acreditasse em alguma coisa, eu estaria agora feliz em saber que a minha avozinha estaria num lugar lindo, encantado, cheio de gente que ela amou ao longo de sua vida. Eu saberia que ela estaria lá esperando por mim também. Mas eu não consigo, eu disse não consigo acreditar!!!! A fé não é para aqueles que querem tê-la ou fingem tê-la. A fé é para aqueles que a têm. Pensar dessa maneira é extremamente bonito e reconfortante. Pois para mim, o desespero, a angústia, a agonia e o abismo continuarão a me sufocar para sempre e a cada dia mais intensamente. Perdi a minha avó querida e um dia perderei outras pessoas que amo. Essa dor parece não ter fim. Minha avó me via na UTI chorando de tristeza e me dizia "Por que você está chorando?" "Não chore não!"... Mas eu não consigo obedecê-la, da mesma forma como eu nunca (ou quase nunca) a obedeci. Ela dizia para eu voltar para casa cedo, ela dizia para eu arrumar meu quarto, ela dizia para eu parar de fumar... Na época, eu nunca fazia nada do que ela me pedia, mas com o tempo e a idade acabei acatando todos os ensinamentos que ela me passou. Hoje eu leio "Esperando Godot", assisto aos filmes expressionistas, gosto de romances e lio livros de história e de arte graças a ela. A minha avó era a pessoa mais culta que eu conhecia. Ela me ensinaou a ler e escreve, ela me transmitiu o gosto pela literatura e pelas obras de arte. Ela era uma enciclopédia ambulante de história... Nossa quanto orgulho eu tenho dela, e quando orgulho gostaria que ela sentisse de mim também. Ela me fazia estudar dia e noite! Ela me matriculou numa escola de inglês e hoje eu sou quem sou graças a ela! Devo-lhe agradecer, querida avó, por tudo!
Saudades Eternas de sua neta Fabiana Dias.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Desabafo do dia

Não sei o que me revolta mais, se é a total indiferença ou se é o sinismo falso ou o fingimento de preocupação. Não sei se é pior fingir que não viu nada ou fingir que se importa. A verdade é que as pessoas não têm nem tempo e nem mais capacidade de se preocuparem umas com as outras. As grandes filosofias e religiões humanistas agora se provam verdadeiras utopias. É nesse contexto contemporâneo que conseguimos reconhecer que o ser humano é naturalmente narcisista, narcisista por excelência. As grandes mentiras que se escondiam por trás de entidades como a igreja e a família começam hoje a serem desmascaradas. Tenho notado o pouco caso que uns fazem aos outros agora que enfrento uma situação problemática. Percebi que ninguém se importa de verdade...

terça-feira, 22 de julho de 2008

Pessoalmente não tenho nada contra os cemitérios, passeio neles com prazer, com mais prazer do que em outros lugares, talvez, quando sou obrigado a sair. O cheiro dos cadávers que sinto nitidamente sob o cheiro da relva e do humo, não me desagrada. Talvez um pouco doce de mais, um pouco estonteante, mas como é preferível ao dos vivos, das axilas, dos pés, das bundas, dos prepúcios cerosos e dos óvulos desapontados.
Samuel Beckett in Primeiro Amor

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Esquizitices nossas de cada dia

Andei pensando esta tarde, acho que estou cada dia mais à beira da loucura, ou será que o mundo é que esta enlouquecendo? Tudo que consigo observar a meu redor me causa asco. Tenho notado as esquizitices das pessoas e às vezes penso que sou o único ser humano normal do planeta terra. Na verdade estou me transformando em um verdadeiro alienista, aquele que acha que só ele mesmo é normal (Ave Machado). Não é possível, as pessoas reparam tanto em mim, no meu jeito de fazer isso ou aquilo, mas vejo tanta coisa estranha por aí que às vezes penso que as minhas manias não são nada perto das grandes aberrações do tipo "Vai lá em casa um dia (não vá não! só te chamei por educação)" ou "se precisar é só falar (mas na hora que me chamar eu não vou estar)"... Pois é, eu já não penso assim. Se alguém me liga e eu não estou com um mínimo de paciência para falar digo logo que não quero falar e pronto... Seria muito mais bonito de minha parte se eu inventasse qualquer besteira para desligar o telefone e a pessoa do outro lado não ficar magoada comigo. Mas acontece que o meu telefone nem mais toca e as pessoas não se aproximam de mim nem mesmo por educação. O único talento nato que tenho é o de espantar todo mundo! Mas isso não quer dizer que eu não queira conviver com ninguém, apenas falo o que penso na lata, sem ficar inventando histórias sem noção...

sábado, 19 de julho de 2008

Monólogo de um corpo sem alma

Quanto mais tento fugir de mim mesma, mais eu descubro quem eu sou: uma assombração que vive a me perseguir!
Acordei hoje e me perguntei o que uma pessoa tão maravilhosa quanto eu está, afinal de contas, fazendo num mundo tão maravilhoso e perfeito quanto este em que vivo? Oras, só posso estar fazendo coisas maravilhosas como odiar cada vez mais os meus semelhantes, ou ter cada dia mais fortalecida a minha inveja, ou mesmo aumentar a intensidade da minha gula e de minha preguiça!
Disseram uma vez que eu gostava de chamar a atenção chocando as pessoas com palavras profanas que saiam da minha boca ou de minhas mãos. Quem disse um absurdo desse estava redondamente quadradamente enganado! Claro que isso é uma blasfêmia!!! Nossa, por que eu gostaria de chamar a atenção com coisas tão óbvias e tão singelas como os meus mais puros e límpidos pensamentos! ou com a forma magnânima que enxergo a vida, as plantas e as pessoas tão lindas e perfeitas ao meu redor!!!!Não sou uma pessoa do bem, tão pouco do mal. Eu simplesmente odeio e guardo o meu ódio para mim mesma, sem disseminá-lo contra ninguém, nem mesmo contra a mais vil escória que habita em minha volta. Já fui revoltada, já fui engajada, já tentei mudar e não consegui mover sequer uma palha. Não acredito na mudança, não acredito na beneficência, não tenho fé em nada e não amo ninguém a não ser eu mesma e as extensões de mim. Então que diferença faço afinal? e que diferença você faz afinal? ambos ocupamos espaço no planeta, espaço este que poderia ser habitado por dezenas ou até centenas de árvores, outras dezenas de animais e algumas centenas ou milhares de insetos. Mas tudo bem, me conformo em ser um viveiro ambulante de micróbios, germes, vírus e bactérias que se alimentam de minha matéria prima!
Não tenho talento para música, nem para a arte. Não gosto de trabalhar e nem de me relacionar com as pessoas. Descobri hoje que existem dores piores do que as existenciais e que a melhor dor é aquela que vem quando se está incosciente.Não gosto de cuidar de plantas e nem de animais. Não tenho paciência com a minha família e nem com a família dos outros. Não suporto conversas banais.Tenho todos os transtornos possíveis já diagnosticados por psicoalgumacoisa. Enfim se você chegou até aqui, se você leu toda essa baboseira que é uma breve definição de minha pessoa, quer dizer que você é um ser humano tão normal quanto eu.
Trechos de "Monólogo de um corpo sem alma" de Fabiana Rodriguez
O mundo é cheio de ovelhas que pensam que são leões...
É interessante parar e observar a atitude das pessoas: Todas elas pensam que os seus problemas são os piores do mundo, e isso porque se dizem cristãs e são cheias de solidariedade e misericórdia! Mas não é bem assim que funcionam as coisas. A natural tendência do ser humano é olhar sempre para cima e pensar da seguinte maneira: "Por que fulano, que não merece nem metade do que tem, é mais feliz do que eu sendo que eu sou muito melhor do que ele?" Esse é o verdadeirovalor dos seres humanos, sem´pre insatisfeitos com o que têm, sempre ambicionando o que é dos outros, sempre desejando o mal para seu próximo.